O agro é tóxico.
Uma onda de produtos naturais tomou conta dos
supermercados, sendo opções que visam atender aos mais variados gostos,
adaptados para a saúde e estilo de vida. A indústria por trás dos alimentos
plantados é uma potência em nosso país. O Brasil lidera a produção agrícola há
muitos anos. Na safra de 2022, nosso país produziu 42% de toda a soja produzida
mundialmente. São inúmeros alimentos processados que utilizam a soja como
matéria-prima, incluindo óleos, farinhas, rações para animais, doces, além de
compor o processo químico de cosméticos, sabão, entre outros.
Recordo-me da primeira vez que ouvi a palavra
"transgênico", através de notícias de jornais que informavam sobre a
inovação no plantio com culturas geneticamente modificadas. Num primeiro
momento, isso me pareceu um filme de ficção científica. Logo, a indústria
precisou se adaptar e informar ao consumidor que determinado produto continha
alimento transgênico, por meio de um triângulo amarelo com um “T”, fixado nas
embalagens. O mercado de alimentos transgênicos é vasto, pois a técnica visa
alterar o DNA dos alimentos para melhorar a produção, através da adaptação e da
possível redução do uso de agrotóxicos.
A tecnologia de modificação genética dos alimentos é
bastante recente. Em 2000, foi desenvolvido o primeiro arroz transgênico. A
partir disso, culturas como soja, milho, canola e algodão estão altamente
adaptadas à técnica. Estudos revelam que os transgênicos não fazem mal à saúde,
mas ainda é preciso uma avaliação a longo prazo. O que se sabe é que quase
todos os países da Europa, assim como o Japão, impuseram restrições aos
produtos transgênicos. O principal motivo pelo qual alguns países não adotam os
transgênicos é que, na promessa inicial da tecnologia, acreditava-se que as
culturas usariam menos agrotóxicos, mas, em muitos casos, o uso é maior. No
Brasil, carecemos de dados sobre o uso de agrotóxicos. Acredita-se que há
décadas esses defensivos são utilizados, mas os dados são catalogados apenas
desde 1990.
Com um crescimento de mais de 1000%, os agrotóxicos estão
presentes em muitos alimentos, inclusive na proteína animal. Afinal, o que são
agrotóxicos? São venenos que visam combater pragas e culturas indesejadas. Para
quem já se aventurou a plantar em casa, deve ter se deparado com o aparecimento
de ervas daninhas em sua horta. Para barrar esse surgimento, é utilizado o
herbicida. Da mesma forma, podem surgir fungos que ameaçam as culturas, e para
isso são usados os fungicidas. O plantio também pode sofrer o ataque de insetos
de várias classes, e para isso é usado o inseticida. Essas são as principais
categorias de agrotóxicos utilizados em nossos alimentos.
Segundo dados extraídos da produção agrícola, cerca de
71% do plantio brasileiro usa agrotóxicos em larga escala. São os mais variados
tipos, e dos 15 agrotóxicos mais comercializados no Brasil, 9 estão banidos na
União Europeia. O mais utilizado por aqui é o Glifosato, um herbicida usado
para controle de plantas daninhas. Ele atinge camadas inimagináveis de nossa
alimentação, presente na água potável e nas células de proteína animal. No
Brasil, esse herbicida pode ter resíduos na água 5 mil vezes maior do que o
permitido na União Europeia. Mesmo que você opte por uma alimentação orgânica,
está ingerindo agrotóxico através da água, e mesmo que consuma apenas água
mineral, continua a ingerir através da contaminação do solo.
Em março de 2015, a Agência Internacional de Pesquisas em
Câncer da Organização Mundial da Saúde classificou o Glifosato como um
"provável causador de câncer em humanos". Em 2019, a Agência Nacional
de Vigilância Sanitária abriu uma consulta pública que teve como resposta a
solicitação da proibição do defensivo. No entanto, a agência reclassificou o Glifosato
como "não potencial carcinogênico". A realidade é cruel, pois entre
2010 e 2019, 5 pessoas por semana foram atendidas em emergências por causa do Glifosato,
sendo que na última década, 214 pessoas morreram por causa dele. 92% dessas
mortes foram classificadas como suicídios.
Entre os variados danos causados pelo Glifosato estão
desordens gastrointestinais, diabetes, depressão, doenças cardíacas,
intolerância ao glúten e alterações hormonais. Dos vários agrotóxicos usados em
nosso país, a grande maioria causa danos irreversíveis à saúde, como o
fungicida Carbendazim, amplamente usado em bananas, morangos, abacaxis e
cereais. Esse veneno é tóxico para a reprodução humana, podendo causar
alterações genéticas, prejudicar a fertilidade e causar má formação em fetos.
Em agosto de 2022, a ANVISA proibiu o fungicida, mas a norma brasileira permite
que os agricultores usem os produtos até o fim do prazo de validade, normalmente
de 10 anos.
Os países possuem autonomia para liberar ou proibir os
agrotóxicos. No Brasil, o registro é regulado pelo Ministério da Agricultura e
Pecuária, com análises da ANVISA e do IBAMA. A liberação final cabe à ANVISA,
mas a agência não reavalia os índices de risco, pois normalmente a proibição
ocorre através da judicialização por órgãos de proteção alimentar. Ao longo do
governo de Jair Bolsonaro, mais de dois mil agrotóxicos foram autorizados,
sendo o maior número de registros concedidos em um único mandato. Essa vasta
liberação tem o apoio da bancada do agronegócio da Câmara dos Deputados e no
Senado Federal, assim como o lobby das indústrias internacionais que produzem
os agrotóxicos. Muitas são as viagens parlamentares para visitar as sedes das empresas
no exterior, como a produtora de agrotóxicos Basf na Alemanha.
A responsabilidade pela entrada de agrotóxicos em nosso
país é subjetiva, pois os países da União Europeia banem e regulam o uso de
vários defensivos, mas não proíbem a produção em seu território. Um dos
principais exportadores de agrotóxicos para o Brasil é a Syngenta, com sede na Suíça.
A empresa é acusada de perseguir pesquisadores, como o
caso de Tyrone Hayes, pesquisador da Universidade da Califórnia. Ele
desenvolveu um estudo que analisava o uso da Atrazina, um herbicida. O produto
é um dos principais agrotóxicos usados nas plantações de milho nos EUA, sendo o
5º mais usado no Brasil. Seu estudo revelou que quando sapos tomavam água que
continha Atrazina, seu desenvolvimento sexual era retardado. Após a descoberta,
o avanço foi de que a Atrazina, também, gerava sapos hermafroditas. Ele decidiu
ir além e ao analisar a urina de homens que tiveram contato com a Atrazina, foi
constatado a baixa produção de espermatozoides.
Após a publicação do estudo, a Syngenta entrou com uma
queixa ética contra Tyrone. Memorandos internos provaram que a companhia havia
criado um grupo de trabalho para provar que os dados da pesquisa não eram
confiáveis. Além disso, há indícios de monitoramento do telefone e do e-mail do
cientista. A empresa também investiu em publicidade no Google para que, ao
buscar o nome "Tyrone Hayes", os usuários encontrassem conteúdo
produzido pela própria companhia. Acredita-se que a empresa monitorava 130
cientistas a fim de desacreditar seus estudos.
O dano à saúde não impede o uso de agrotóxicos. Em 2021,
foram analisadas bebidas, biscoitos, pães e salgados mais consumidos pelos
brasileiros, e 59% dos produtos continham resíduos de agrotóxicos, incluindo o
Carbofurano, proibido no país desde 2017. Assim, sua bebida preferida pode
estar acompanhada de um aditivo prejudicial ao sistema nervoso central e que
causa a morte dos neurônios.
O desafio de produzir alimentos para um país da extensão
do Brasil é notável, sendo necessário atender às demandas da exportação para
muitos países. O país possui muitos estudos sobre o uso desses agrotóxicos,
porém a indústria e o lobby os abafam. Existe a possibilidade de diminuir o uso
de agrotóxicos? É provável que não, principalmente pelas questões da
contaminação cruzada, mas a população deveria ser melhor informada sobre o
conceito de ingestão diária aceitável, dos reais níveis de contaminação e do
impacto para nossa saúde a longo prazo.
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