A indústria está nos contando uma mentira verde.


A indústria se renova a cada ciclo de interesse de consumo. No passado, os produtos que agregavam valor eram aqueles cujo tamanho agradava aos olhos, e as pessoas pouco se importavam com as embalagens. A funcionalidade do produto também tinha um foco único naquilo que ele se propunha

Nas últimas décadas, iniciou-se um debate sobre como o consumo pode impactar o meio ambiente. Afinal, vivemos em um momento de degradação ambiental, desmatamento e consumo acelerado. O primeiro impacto do consumo foi o banimento dos canudos de plástico. Estima-se que um canudo leve até 200 anos para se decompor e, em 2018, esse item foi o mais coletado nos oceanos. O grande impacto do uso do canudo está no fato de que o utilizamos por poucos minutos e já o descartamos. Nos oceanos, animais marinhos o ingerem, gerando problemas para toda a cadeia alimentar. Assim, ingerimos o microplástico. Estima-se que uma pessoa esteja ingerindo o equivalente a um cartão de crédito de microplástico por ano.

A temática ecológica tomou a agenda de muitas empresas. Desde bancos até a indústria da construção entraram na onda. Falar sobre sustentabilidade, redução consciente e menor uso de plástico são algumas das táticas do marketing verde. Essa remodelação parece ser benéfica em um primeiro momento, mas estão nos contando uma mentira verde.

O termo greenwashing (do inglês, “lavagem verde”) surge para desmascarar a falsa divulgação de uma cadeia sustentável por parte da indústria. São diversos relatos de atividades duvidosas. Para considerar a prática sustentável e invalidar aquelas que geram confusão, órgãos de defesa do meio ambiente mapearam os principais parâmetros que fazem com que a indústria conte suas mentiras verdes.

A mais usual que está tomando conta dos produtos de higiene, cosméticos, limpeza e utilidade doméstica são as informações sem prova. Trata-se de um apelo ambiental que não é facilmente comprovado. São indústrias que afirmam reciclar seus produtos pós-consumo sem o fornecimento de evidências ou com informações duvidosas. A troca oculta também é um apelo verde duvidoso. Quando foi diagnosticado o problema dos canudos, automaticamente a indústria lançou o canudo de papel. Só que esse papel pode não ser a melhor opção, pois é necessário saber se ele é fruto de uma floresta sustentável, livre de emissão de gases nocivos ou de cloro para branqueamento. Em alguns casos, o canudo de papel solta cola que é ingerida pelo organismo, se utilizado em uma bebida com alta temperatura.

Outro apelo comum é as descrições de “100% natural”, só que ao olhar os ingredientes estão presentes, por exemplo, mercúrio, urânio que são naturais, mas trazem grande impacto para as pessoas e para o meio ambiente. Nesse item, também estão alguns extratos ou sucos de frutas que misturam conservadores. Uma tática muito usual, e que já é utilizada no Brasil há um tempo é a irrelevância. Trata-se de evidenciar que a indústria não usa algum tipo de nocivo ao meio ambiente, só que aquilo ou não é verdadeiro ou não é mais necessário. Os desodorantes em aerossol são o maior exemplo, que usam selos de “livre de CFC”, um tipo de composto que agride a camada de ozônio. A irrelevância está em que desde 2007 é proibido usar o gás nos aerossóis.

Ainda contamos com mentiras verdes como o menor dos males, como os cigarros eletrônicos, reivindicações ambientais falsas, etiquetas com selos ou informações falsas. Logo no início do debate sobre a sustentabilidade e o impacto da indústria no meio ambiente, a Volkswagen deu um grande exemplo de como contar uma mentira verde.

Tudo começou em 2007, quando o governo dos EUA tornou rígidos os padrões de emissão de gases poluentes a partir da combustão do óleo diesel. Em 2009, a Volkswagen lançou uma campanha global que anunciava o primeiro sistema de motores de “diesel limpo”. A promessa era um motor que dispensasse o uso de ureia na mistura dos gases e foram apresentados testes que comprovavam o baixo nível de emissões.

O Conselho Internacional de Transporte Limpo, órgão ambiental independente, notou que três carros que usavam o sistema estavam com índices de poluentes muito acima daqueles informados pela companhia. Como forma de evidenciar a redução de poluentes, a Volkswagen processou o órgão e a Universidade de West Virginia, que também fez parte dos estudos. A indústria de automóveis afirmava que o estudo era falho e culpava questões técnicas pelos resultados.

Mesmo afirmando que a revolução do “diesel limpo” era verdadeira, a Volkswagen realizou um recall em 500 mil carros nos EUA, prometendo implementar um pequeno ajuste no motor. Os órgãos de defesa continuavam a denunciar a diferença dos dados apresentados em laboratórios, daqueles coletados nos carros nas ruas. A Agência de Proteção Ambiental impôs uma auditoria nos processos internos da indústria e descobriu a existência de um software instalado na central dos carros que alterava a emissão dos poluentes, apenas quando submetidos a vistorias.

O software reduzia os níveis de poluentes emitidos quando reconhecia uma condição de teste. Nas condições normais de rodagem, os controles eram desligados e os carros poluíam muito mais do que o permitido. A companhia admitiu o uso do software em 11 milhões de veículos em todo o mundo. No Brasil, estão incluídas 17 mil unidades da picape Amarok. A filial brasileira foi multada pelo IBAMA e pelo Procon em R$ 8 milhões. Segundo estimativas, as penalidades podem gerar multas de mais de 48 bilhões de dólares. Somente nos EUA, a companhia firmou um acordo de 10 bilhões para pôr fim aos processos movidos por consumidores. Acredita-se que modelos da marca Porsche e Audi, fabricados pela Volkswagen, também possuem o software danoso. A companhia nunca detalhou quais carros e modelos alteram os dados.

A seriedade da pauta ambiental mostrou que o posicionamento da indústria nas questões que reduzem o impacto ao meio ambiente gera lucro. O aprendizado gera desvios de informações e faz com que o consumidor seja lesado. Várias empresas brasileiras se posicionaram informando reduzirem carbono, mas é difícil precisar o benefício através da cadeia. As embalagens também sofreram muitas modificações, com informações de “menos plástico”, mas não o banimento do uso dele e de um volume de informações de uma mentira verde que não é regulada no Brasil.

A seriedade da pauta ambiental mostra que o posicionamento da indústria em questões que reduzem o impacto ao meio ambiente gera lucro. As atividades resultam em desvios de informações e faz com que o consumidor seja lesado. Várias empresas brasileiras se posicionaram informando reduzir carbono, mas é difícil precisar o benefício por toda a cadeia. As embalagens também sofreram muitas modificações, com informações de “menos plástico”, mas não o banimento do seu uso. Há liberdade no volume de informações de uma mentira verde que não é regulada no Brasil.

A única norma vigente sobre o tema é a ABNT ISO 14021, que determina que o autor de uma declaração nas embalagens de produtos, propagandas ou mídias é responsável pelo fornecimento de informações que comprovem as declarações. Qualquer consumidor pode solicitar as informações. No entanto, a mesma norma contém um item que abriga a mentira verde, que diz que "só são consideradas verificáveis as alegações que podem ser atestadas sem o acesso de informações empresariais confidenciais". Assim, quando os consumidores conseguem acessar o serviço de atendimento e contestam tais informações, recebem auto declarações complexas ou estudos sem embasamento algum, e na maioria dos casos, não recebem resposta alguma.

Teremos de conviver um bom tempo com os termos: “amigo da Terra”, “sustentável”, “ecofriendly”, “ecológico”, “eco”, entre outros, sem comprovação alguma.

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