O fim da CPMI do MST.
Como forma de se posicionar diante de um governo de esquerda, o Congresso Nacional, cujo a maioria se declara de direita achou uma nova forma de fazer política. As Comissões Parlamentares Mistas de Inquérito (CPMis), cujo o mecanismo investigativo está sob o comando de deputados federais e senadores. Recentemente, tive a oportunidade de lançar meu livro intitulado "História das CPIs do Brasil", no qual relato os momentos mais marcantes das CPIs no país, destacando aquelas que tiveram o maior impacto.
Para que uma CPI seja instaurada, é necessário um
requerimento assinado por membros das casas legislativas, alcançando o quórum
mínimo de 27 senadores ou 171 deputados. O poder de uma CPMI, durante seu
funcionamento, é voltado para investigações. Isso lhe confere poderes
semelhantes aos de uma autoridade judicial, incluindo a capacidade de
interrogar testemunhas, ouvir suspeitos, efetuar prisões, convocar ministros de
Estado, quebrar sigilo bancário, fiscal e de dados, entre outras atividades
essenciais para a elaboração de um relatório final. No entanto, é importante
esclarecer que uma CPMI não tem competência para julgar ou determinar punições
em relação aos fatos investigados.
O ano de 2023 começou com a proposição de quatro comissões:
uma destinada a investigar os eventos ocorridos em 8 de janeiro, outra
relacionada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, uma terceira sobre
o rombo das Lojas Americanas e a última para averiguar às apostas esportivas. É
importante ressaltar que, além do quórum mencionado, um dos requisitos para a
criação de uma CPMI é a delimitação precisa de seu objeto, ou seja, a
investigação de um fato específico e claro. Com o surgimento dessas novas CPMIs,
parece que essa delimitação tornou-se relativa, muitas vezes servindo como instrumento
de ataque ao governo em exercício, dependendo das alianças formadas para sua
aprovação.
A CPMI do MST, formada principalmente pela bancada
ruralista, iniciou-se com a premissa de investigar um fato difuso, uma vez que
sua proposta era "investigar a atuação do grupo MST, seus reais propósitos
e seus financiadores". A presidência da comissão foi assumida pelo
tenente-coronel Zucco, um deputado federal alinhado com o bolsonarismo, que
também foi um dos autores do pedido de instauração da CPMI, protocolado no seu
primeiro mês de mandato. A relatoria ficou a cargo do deputado Ricardo Salles,
ex-ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, que tenta consolidar-se como
candidato à prefeitura de São Paulo em 2024. Em seu discurso inaugural, o
presidente da comissão afirmou que o objetivo do mecanismo investigativo era
"estabelecer a paz e a ordem no campo".
A CPMI deve ter um objeto de investigação claramente
definido e não deve estar relacionada a outras investigações em curso.
Portanto, sou crítico em relação às atuais CPMIs. Em muitos casos, as
autoridades judiciais já estão conduzindo investigações paralelas. Em várias
delas, como a CPMI dos atos de 8 de janeiro, os sigilos já foram fechados e
o Supremo Tribunal Federal está conduzindo investigações, o que torna a
comissão redundante. No entanto, ao analisar a CPMI do MST, fica evidente que a
estratégia era atacar o governo de Luís Inácio Lula da Silva, mas o resultado
foi uma atuação parlamentar desastrosa.
A CPMI do MST realizou um total de 11 reuniões, sendo que as
duas primeiras serviram para eleger o presidente da comissão e apresentar o
plano de trabalho. Nas outras nove reuniões, foram apresentados 302
requerimentos, dos quais apenas 74 foram votados e 70 aprovados, a maioria
deles relacionados à obtenção de informações. Pelo menos 17 pedidos estavam
vinculados à Frente Parlamentar Agropecuária. A bancada de esquerda foi
prejudicada, com a maioria de seus requerimentos sendo rejeitados. Esses
partidos pretendiam usar a comissão para investigar conflitos agrários e o uso
indevido de terras públicas.
Um dos aspectos negativos da comissão foi a misoginia
demonstrada por alguns parlamentares, com queixas de interrupções, vaias,
gritos e até o corte do microfone durante os discursos das deputadas. Esses
casos foram encaminhados à Procuradoria-Geral da República, que muitas vezes
arquiva esse tipo de processo. No final de maio, a única diligência realizada
pela comissão resultou em crimes cometidos por seus membros. Durante uma visita
a um assentamento em Presidente Prudente, São Paulo, os deputados invadiram
casas e proferiram insultos aos moradores. Vale ressaltar que o local não era
uma ocupação do MST, mas sim da Frente Nacional de Luta Campo e Cidade, uma
entidade ligada a José Rainha, liderança que já fez parte do MST.
O palco da oposição foi formado. Através dessa CPMI muitos
deputados conseguiram mostrar-se como opositores do governo. No entanto, essa
atitude pareceu mais focada em gerar engajamento nas redes sociais e criar
narrativas impactantes do que em apresentar soluções eficazes para o público. O
resultado final foi à falta de aprovação de um relatório.
Após 130 dias de trabalho, a CPMI do MST tornou-se a
primeira a não produzir um relatório final aprovado. A confusão começou quando
o relator, Ricardo Salles, solicitou uma prorrogação da comissão após o prazo
original de 10 dias para a entrega do relatório. Quando o relatório final foi
apresentado, a comissão buscava indiciar um deputado federal do Partido dos
Trabalhadores. No entanto, após negociações internas, a acusação contra o
parlamentar foi retirada do relatório. O presidente da Câmara, Arthur Lira,
recusou-se a votar o relatório final para proteger a integridade da casa
legislativa. A culpa recaiu sobre Salles, que não seguiu o procedimento
adequado ao não entregar o relatório no prazo estipulado e vazou partes do
documento para a mídia que o apoia, incluindo a Jovem Pan. A ala governista
conseguiu superar os deputados de direita e elaborou um relatório paralelo,
redigido pela deputada do PSOL, Sâmia Bomfim, com o objetivo de apresentá-lo às
autoridades, defendendo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.
De maneira estranha e
aparentemente sem conexão, na semana seguinte, três médicos foram assassinados
no Rio de Janeiro. Eles estavam em um quiosque à beira-mar. São eles Marcos de
Andrade Corsato, Perseu Ribeiro Almeida e Diego Ralf Bomfim, sendo este último
irmão da deputada Sâmia Bomfim.
No dia seguinte, em entrevista, o
ex-presidente Jair Bolsonaro exclamou: "Eu morei ali do lado, no
condomínio, por muito tempo. No Rio de Janeiro, assim como em todo o Brasil, a
criminalidade tem crescido, porque o atual governo tem uma proximidade muito
grande com a bandidagem. Por ocasião das eleições, o único local onde ele
(Lula) foi aplaudido foi nos presídios".
É importante ressaltar que o
matador da vereadora Marielle Franco saiu desse mesmo condomínio.

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