True Crime: as histórias de crimes que geram lucro.
Os EUA
testemunharam o crescimento meteórico do jogador da NFL, O.J. Simpson, que foi
o principal corredor por quatro temporadas entre as décadas de 1960 e 1970.
Após sua rápida ascensão no esporte, ele migrou para o entretenimento,
desempenhando vários papéis em séries de televisão. No entanto, sua fama
mudaria na noite de 12 de junho de 1994, quando Nicole Brown, sua ex-mulher, e
seu amigo Ron Godman foram encontrados mortos, vítimas de diversas facadas. A
cena de horror e sangue tomou conta da casa de Nicole, com apenas seu cachorro
de estimação como testemunha. Anteriormente, O.J. Simpson havia sido fichado
três vezes por agredir sua ex-mulher, inclusive quebrando com um bastão de
beisebol os vidros do carro de Nicole em um dos ataques.
Em 17 de
junho de 1994, O.J. foi acusado de duplo homicídio e deixou uma carta para
amigos anunciando seu desejo de suicídio. Perseguido pela polícia, O.J. Simpson
fugiu pelas ruas da cidade, percorrendo 96 quilômetros. Esse evento peculiar,
que se assemelhava a uma série policial, despertou um estranho desejo nas
pessoas de acompanhar o desenrolar dos acontecimentos. Os meios de comunicação
começaram a transmitir a perseguição em tempo real, inclusive interrompendo a
transmissão de alguns jogos da Copa do Mundo para comentar a fuga de O.J.
Simpson. Após permanecer trancado em seu carro por três horas, ele se entregou.
Assim
começou o chamado “julgamento do século”. Ao longo de vários meses, mais de 20
milhões de pessoas assistiram diariamente o julgamento pela televisão. Levado a
júri popular em 3 de outubro de 1995, O.J. Simpson foi absolvido dos crimes.
Estima-se que mais de 100 milhões de pessoas assistiram ao veredito, superando
o recorde de audiência da chegada do homem à Lua e do funeral do presidente
Kennedy.
O gênero de true
crime ou histórias de crimes reais ganhou muitos adeptos nos últimos anos.
Através de histórias verídicas de crimes, os espectadores podem adentrar na
mente humana e nas mais variadas formas de cometê-los. As origens desse gênero
são um tanto difusas, remontando muito antes do caso de O.J. Simpson.
Estima-se
que no século XVII tenham surgido os primeiros livros que narravam crimes
reais. Os sermões de pastores puritanos antes da execução por enforcamento de
infiéis foram transformados em livros que detalhavam os supostos crimes desses
condenados. Além disso, havia o relato de romancistas e poetas que
transformavam histórias de crimes reais em obras ficcionais.
Até o final
da década de 1980, o gênero de crime real era considerado uma subcultura, e os
telespectadores e leitores de livros, séries e programas de televisão eram
frequentemente julgados como rebeldes. A adrenalina e a curiosidade em conhecer
as potencialidades do ser humano para cometer crimes, tudo isso no conforto de
suas casas, fizeram com que o gênero ganhasse muitos adeptos.
O caso de
O.J. Simpson foi um marco, pois após o assassinato, julgamento e absolvição,
muitos programas sobre o caso foram produzidos. Com o advento do streaming e
dos podcasts, muitas outras produções foram lançadas.
No Brasil,
recentemente lançada, a série documental Pacto Brutal: O Assassinato de
Daniella Perez, da HBO, foi uma das mais assistidas globalmente. Ela relata o
caso da morte de Daniella Perez, atriz e filha da novelista Glória Perez.
Daniella fazia par romântico na novela De Corpo e Alma com o ator Guilherme de
Pádua. Em 29 de dezembro de 1992, Daniella foi brutalmente assassinada a
tesouradas por Guilherme e sua esposa Paula Thomaz. Acredita-se que o crime
tenha sido motivado pelo desejo de Guilherme de aumentar a sua participação na
novela, forçando Daniella a ajuda-lo, enquanto Paula nutria um ciúme excessivo
das cenas do casal. Ambos negaram o crime, mas foram condenados a 19 anos de
prisão, dos quais cumpriram apenas 6. Após serem libertados, o paradeiro de
Paula permanece desconhecido, enquanto Guilherme se tornou pastor evangélico e
faleceu vítima de um infarto em 2022.
Várias
séries foram produzidas, e o mercado de livros também se expandiu nesse gênero.
O jornalista Ulisses Campbell lançou uma trilogia de histórias sobre mulheres
assassinas. O primeiro livro, intitulado Suzane – Assassina e Manipuladora,
conta a história de Suzane von Richthofen, que, juntamente com seu namorado e o
irmão, assassinou seus próprios pais a pauladas. Ela foi condenada a 39 anos de
prisão. É importante ressaltar que o julgamento deles teve ampla cobertura
televisiva. Em 2023, Suzane migrou para o regime aberto após cumprir 21 anos de
pena. O segundo livro do jornalista, intitulado Elize – A Mulher que
Esquartejou o Marido, relata o chocante crime de assassinato e esquartejamento.
Após descobrir a traição do marido, Elize Matsunaga atirou em sua cabeça,
esquartejou o corpo e abandonou os restos mortais em um matagal. Ela foi
condenada a 19 anos de reclusão, cumprindo 10 anos em regime fechado. O último
livro, intitulado Flordelis – A Pastora do Diabo, conta a história da pastora
evangélica e política que foi a articuladora do assassinato do marido, morto a
tiros pelos próprios filhos. Ela foi sentenciada a 50 anos de reclusão.
Outro
segmento interessante do true crime é contar histórias de crimes do passado com
um novo olhar e, em alguns casos, com novos fatos que não foram vistos na época
dos acontecimentos. Um exemplo é a série documental lançada pela Netflix,
intitulada Conversando com um Serial Killer: O Palhaço Assassino, que narra a
história de John Wayne Gacy, que, entre 1972 e 1978, torturou, estuprou e matou
33 jovens rapazes. Ele foi condenado à morte em março de 1980, passou 14 anos
no corredor da morte e foi executado por injeção letal em maio de 1994. O caso
do assassino Ted Bundy, que estuprou e matou várias mulheres na década de 1970,
também despertou grande interesse. Bundy passou quase uma década no corredor da
morte negando os crimes, mas pouco antes de sua execução em 1989, confessou 30
homicídios. Até hoje, o número exato de mortes provocadas por ele é
desconhecido. O caso inspirou a produção de seis filmes, sendo um deles
intitulado Ted Bundy – A irresistível face do mal, estrelado pelo ator Zac
Efron.
São diversos
os motivos que levam as pessoas a cometerem crimes. Da mesma forma, os motivos
para assistir ao gênero true crime estão cada vez mais evidentes. Seja pelo
conforto de acompanhar ou ler sobre um caso horrendo sem a possibilidade de se
envolver, pela adrenalina gerada pelas histórias ou pelo simples desejo de
conhecer histórias reais de crimes, o gênero continua a atrair novos adeptos e
deve gerar diversas produções futuras.
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