Reduflação: a diminuição dos produtos e do poder de compra.


No início dos anos 90, os brasileiros foram atingidos por uma hiperinflação. Os supermercados alteravam os preços a cada turno, e eram necessárias várias notas de dinheiro para comprar um pão. Esse aumento de preços ocorreu devido à implementação da democracia plena em nosso país. Após 20 anos de ditadura militar, os militares devolveram o país aos cidadãos com dívidas externas altíssimas, comércio exterior limitado e pouca exploração de novas tecnologias.

Em março de 1990, a inflação no Brasil atingiu 83%. O primeiro presidente da República eleito por voto popular, Fernando Collor de Mello, articulou diversos planos para aumentar o poder de compra e melhorar as contas públicas. Uma das práticas mais ardilosas foi o Plano Collor, que, com o intuito de aumentar o caixa do estado, propôs o confisco das poupanças de quem tivesse valores acima de 50.000 cruzeiros, que, na cotação de hoje, equivaleria a cerca de R$ 20,00. Praticamente todos os brasileiros que tinham dinheiro guardado em bancos sofreram com esse plano, que nunca devolveu os valores às pessoas, as quais ainda hoje têm processos contra o governo.

Esse contexto de inflação muito alta nos traz aos dias atuais, com um maior controle econômico, melhoria nas exportações e um aumento nos preços controlados. No entanto, esse controle trouxe uma nova prática industrial: a reduflação, nomeada seguindo a junção das palavras "redução" e "inflação".

Para você que faz compras no supermercado, essa estratégia tem sido notada constantemente. Trata-se da redução da quantidade de produto para aumentar o valor percebido. Os principais produtos que manufaturam commodities e utilizando o dólar como precificador de matéria-prima, adotam essa estratégia. Você deve se lembrar de como eram as caixas de bombons ou barras de chocolate e como os produtos são comercializados hoje. No passado, uma caixa de bombons tinha em média 500 g, hoje a caixa que é apresentada como grande gira em torno de 260 g, e temos opções de 180 g. O mesmo ocorre com produtos de limpeza, como os lava roupas, que migraram para versões concentrados líquidos, fazendo com que o consumidor perca a comparação do passado, em quilos de produtos, agora medido como "quantidade de lavagens".

O impacto no consumo é significativo, pois a maioria das pessoas percebe que ir ao supermercado custa cada vez mais caro e que saem com menos produtos. Outras estratégias são usadas pelas indústrias para estimular o consumo e tornar o acesso aos produtos mais caros. Um caso que ganhou grande repercussão foi o do famoso Leite Moça, que apresentou sua versão econômica chamada de "mistura láctea". Os consumidores sentiram-se lesados pelo fato de a embalagem ser idêntica à do leite condensado, com apenas pequenas mudanças de cores.

A reduflação causa uma certa confusão no consumo, pois as indústrias podem mudar suas formulações e diminuir a quantidade de produtos quantas vezes acharem pertinente. Segundo o Código de Defesa do Consumidor, toda mudança de peso ou quantidade de produto deve ser informada na embalagem, com escrita em negrito e tamanho de fácil leitura. O aviso deve permanecer na embalagem por pelo menos 180 dias. Não existe um controle integrado de alteração de pesos e medidas, portanto, é necessário confiar na indústria. Além disso, muitos consumidores não percebem o aviso legal de redução, que é colocado pelas indústrias na parte inferior da embalagem.

Em algumas embalagens, o produto é reduzido a ponto de criar um espaço vazio. A estratégia é lançar um novo produto quando a quantidade se torna difícil de vender, como no caso da "mistura láctea". Assim, o produto de consumo torna-se premium. Os azeites de oliva também passaram por essa situação, agora temos várias opções de "mistura culinária" com 95% de óleo de soja e 5% de azeite, apenas para dar o aroma característico.

A grande maioria das marcas se posiciona informando que está "atendendo às novas demandas dos consumidores", o que não é incorreto afirmar, pois o poder de compra diminui devido à inflação e a uma das mais altas taxas de impostos sobre produtos. Para analisar o impacto do Imposto sobre Produtos Industrializados, o açúcar tem uma alíquota de 14%. Quando usado para fazer chocolate, o produto adiciona impostos de PIS correspondentes a 1,65%, Cofins 7,60%, ICMS 18% e IPI 5%. Além disso, 6,28% são referentes a taxas e alvarás de funcionamento. Isso totaliza 38,53%.

Uma das soluções é a Reforma Tributária, que deve melhorar a oferta de produtos de consumo ao reduzir a carga tributária sobre alimentos para cerca de 12%. Estudos afirmam que 90% das famílias brasileiras pagarão menos impostos por meio do cashback, que visa a devolução de impostos aos consumidores. No entanto, a proposta ainda carece de critérios de participação.

Pechinchar é uma estratégia para escapar dos impactos da reduflação. Assim como marcas de renome reduzem cada vez mais seus produtos para manter o valor percebido, novas marcas surgem para ocupar o espaço daqueles que querem valorizar seu dinheiro.

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