Oposição fantasma.

 


O movimento de direita no Brasil teve grande ascensão com o posicionamento claro do então deputado Jair Messias Bolsonaro. Após 28 anos de atividade parlamentar, ele tornou-se candidato à Presidência da República no ano de 2018. Antes dele, era difícil delimitar o espectro político de direita. Na época pós-império, os presidentes tinham uma posição positivista que beirava a esquerda moderada, mas o foco sempre foi ser contra a oligarquia criada na época.

Nos anos pós-guerra mundial, o Brasil aprendeu contrações com presidentes de centro-esquerda e centro-direita. No período da ditadura militar, a direita aflorou com variações de linha dura e moderada. O último presidente militar, João Figueiredo, entregou a nação sob o comando de um governo de direita moderada. Assim, com a democratização plena a partir de 1988, as correntes de centro-esquerda e centro-direita tomaram formas cada vez mais usuais, refletindo-se também nas posições legislativas.

O Bolsonarismo cria uma persona figurativa de direita plena, conhecida em outros países como extrema direita, com bases de pensamento conservador, misturando princípios cristãos, liberdade, oposição às minorias e supostas diminuições do estado. Essa mistura de desejos e princípios ganhou milhões de adeptos, juntando o predicado da luta contra o comunismo, entre outras ideologias que beiram o ridículo.

A posição política de direita é criada e deixa muito claro o que representa. Centenas de políticos navegaram na onda de Bolsonaro, incluindo seus nomes nas urnas, criando assim Hélio Bolsonaro, Bolsodória, entre outros. Nas últimas eleições, 41 candidatos tinham Bolsonaro em seu registro de candidatura, segundo o TSE. Bolsonaro foi eleito presidente por um partido dito social, passou boa parte do mandato sem partido, tentou criar seu próprio partido e, no último pleito, ingressou em um partido com o princípio da liberdade. Essa estratégia causou certa confusão no espectro político, o que pouco importa para o bolsonarismo, pois seus seguidores seguiam ao líder. Seu último partido, o PL, elegeu a maior bancada da Câmara dos Deputados. No entanto, a direita não contava com a perda da eleição, deixando Bolsonaro sem cargo político e inelegível.

Desta forma, a direita torna-se a nova oposição nacional, elegendo nomes que estavam muito próximos de Bolsonaro, como o vice-presidente da República Hamilton Mourão, ao cargo de senador. Os ministros Tarcísio de Freitas, Tereza Cristina, Damares Alves, Marcos Pontes, Sérgio Moro, Rogério Marinho, Osmar Terra, Ricardo Salles e Eduardo Pazuello também assumem cargos políticos. No entanto, eles não contavam com os escândalos promovidos por seu líder. Começando pela inabilidade emocional para entregar a faixa presidencial, indo passar férias nos EUA e levando consigo todo o aparato estatal durante três meses. O silêncio da oposição foi sepulcral, os quartéis tornaram-se espaços de manifesto patriota, e vimos um dos maiores atos antidemocráticos acontecer no Brasil. Pressionado, sem visto diplomático e força política, Bolsonaro retornou ao Brasil. Ao chegar no aeroporto, não parecia mais aquele líder voraz que dizia tudo que pensava. Agora a imunidade parlamentar havia passado.

Com o passar dos meses, o governo Lula acertou os ponteiros e começou a fazer entregas que visavam o cotidiano. Antes mesmo do início do mandato, a base de centro-esquerda aprovou a chamada PEC da Transição, liberando cerca de R$ 145 bilhões. Ao longo dos meses de 2023, o governo melhorou a economia, acertou o PIB, criou programas de acesso ao crédito e, em agosto de 2023, atingiu 60% de aprovação. Cabe ressaltar que Luís Inácio Lula da Silva sempre foi de esquerda, mas viu a oportunidade de criar uma Frente Ampla, inclusive tendo como vice Geraldo Alckmin, conhecido no meio político como "picolé de chuchu", por seus atributos insossos, mas que ganhou projeção. Assim, o governo atual tomou um posicionamento de centro-esquerda.

Escândalos de corrupção e a descoberta de um presidente que usava a máquina pública a seu favor fizeram com que a oposição não tivesse um rumo certo. Começando pelo próprio Bolsonaro, que visita a Polícia Federal quase toda semana para prestar depoimentos e se limita a se apresentar como líder da direita sem ao menos poder concorrer nos próximos dois pleitos para presidente. Ele mostra uma dificuldade de apontar quem será seu sucessor, muito pelo seu temperamento de quem não esperava perder e também por ter sido um político sem planejamento algum. Muitos dos bolsonaristas buscam negar a ligação com um ex-presidente que comia pizza em NY em pé para não tomar vacina, mas que na verdade planejava a venda de presentes presidenciais para seu enriquecimento ilícito.

O distanciamento é tamanho que antes Bolsonaro andava com uma comitiva de pessoas que disputavam para aparecer nas câmeras. Agora ele viaja de avião comercial, sempre com um segurança ao lado de óculos escuro; pode ser que nem eles queiram ser reconhecidos. Não se pode deixar de relatar que, como um líder que moveu milhões de pessoas, ainda há alguns indícios de insanidade. Como no caso do recebimento de medalhas de cidadão honorário de lugares que Bolsonaro nunca fez nada para as pessoas daquela região, ou a presença em feiras e festas com adeptos aos gritos de "mito, mito, mito".

A política é extremamente instável, pois os interesses mudam e a vontade de permanecer é maior do que qualquer liderança, mesmo que essa seja Bolsonaro, que foi o maior líder que a direita já teve. A própria oposição começa a se enquadrar como centro-direita, liberal, conservadora ou outra denominação que não esteja ligada à corrupção ou falta de noção do passado. O movimento emblemático são as participações nas CPIs e CPMIs criadas, mas lá eles demonstram pouca destreza em se conectar com o povo, que aos poucos mostra desinteresse na política do dia-a-dia e espera que os governantes entreguem o que prometeram. Essas comissões servem para que cada legislador da direita cuide do seu próprio rebanho, apresentando discursos e vídeos impactantes para sua base, que não é mais a de Bolsonaro.

O ex-presidente reduz-se a um cabo eleitoral de um partido, que não quer perder seu líder, contando que ele trouxe os candidatos que inflaram as verbas do fundo eleitoral. A ex-primeira-dama foi uma aposta para ser a nova liderança, mas a esperança durou muito pouco devido aos seus envolvimentos em casos de corrupção, seu temperamento e sua trajetória sem nenhuma experiência política.

A vaga para uma oposição séria está aberta, mas nenhum político, pelo menos os ditos presidenciáveis, quer ser chamado de direitista. Bolsonaro construiu e destruiu o primeiro governo de direita. Lula projeta-se a favor do povo, mesmo sendo de esquerda, apresentando-se como a nova opção de paz, amor e cidadania

A oposição fantasma calou-se e como algo sobrenatural aparece apenas para tratar de temas do passado ou que são criados nas mentes perturbadas pelo ódio e rancor. O povo chamado de patriota sumiu, vários expoentes do radicalismo não falam mais e, quando usam a palavra, fazem de tudo para se distanciar do bolsonarismo.

Mesmo com o fim da oposição de direita, pequenas faíscas surgem, como no caso da deputada Bia Kicis, que publicou um vídeo de um casamento. A noiva, bolsonarista, casava-se portando uma tornozeleira eletrônica presa ao pé, adquirida por sua participação nos atos terroristas de 8 de janeiro. O complemento do look era o véu com as cores da bandeira do Brasil, mas até nesse simbolismo a oposição fantasmagórica está presente. Na igreja, poucas pessoas assistem atônitas à cena.

Há vagas para uma oposição séria.

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