Precisamos falar sobre Manoel Soares.


Manoel é um desses artistas multifacetados dos quais precisamos falar. Primeiramente, por quebrar as barreiras da branquitude na televisão. Mas também por sua ascensão nacional e a tentativa frustrada de derrubá-lo por grande parte da mesma mídia que o alçou.

Confesso que, devido ao meu privilégio branco, hesito em abordar esse tema. Sei que meus olhos veem o mundo cheio de oportunidades para todos, mas estamos longe de entender e absorver quando um negro conquista seu devido espaço.

Nascido em Salvador, Manoel migrou para a cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, como muitos negros, sendo filho de mãe solteira, uma doméstica. Ele, sua mãe e seus irmãos foram vítimas de violência doméstica por parte do pai até seus oito anos de idade.

Ele pouco divulga, mas foi através da cultura das ruas que se tornou cofundador da Central Única das Favelas (CUFA), onde sua esposa, Dinorah Rodrigues, atua como coordenadora do projeto até hoje. Sua história na TV se entrelaça com sua vida sofrida.

As dificuldades para se colocar no mercado de trabalho e a necessidade da mãe de trabalhar em "casa de família" na Bahia o fizeram buscar emprego no sul. Sem conseguir a vaga desejada, viu-se obrigado a morar nas ruas da cidade. Com sua imponente altura de 1,91, encontrou uma oportunidade nada convencional de trabalho. Algumas travestis o pagavam para fazer a segurança do ponto, caso algum cliente causasse problemas.

Sem nunca roubar ou usar drogas, assumiu um papel protagonista e, nessa época, começou a fazer pequenas rimas em troca de alguns trocados para se alimentar. Um dia, debaixo de um viaduto, avistou uma câmera de televisão com uma repórter segurando um microfone. Era a oportunidade de sua vida, e ele não a deixou escapar.

Ao ser abordado para falar poucas palavras, Manoel mostrou-se muito articulado nas respostas, inclusive mencionando que gostava de hip hop, fazia rimas e buscava uma oportunidade. Uma produtora do canal TVE viu a reportagem e percebeu o futuro promissor de Manoel. Ele começou a estagiar no canal, realizando tarefas como limpeza, enrolando cabos e carregando equipamentos, ao mesmo tempo em que ingressava na faculdade de jornalismo. Arrumou um canto para dormir dentro da emissora e a primeira oportunidade surgiu: o canal liderava a audiência em uma faixa de horário e era um dos únicos do país a ter um programa voltado para a cultura Hip Hop. Manoel tornou-se um dos apresentadores da atração.

Simultaneamente, ele trabalhava como gráfico e na construção civil para pagar os estudos e sobreviver na capital gaúcha. Um certo dia, a gerente de produção do canal RBS TV, afiliada da Rede Globo, ofereceu a Manoel a oportunidade de ter um quadro "das ruas" no principal jornal da emissora.

Seu protagonismo e a forma leve de apresentar temas, muitas vezes tão pesados, como a vida cotidiana das favelas e das ruas, o fizeram alçar voos mais altos. Ele começou a participar como convidado no programa Fantástico e, em 2017, integrou o grupo de jornalistas do programa Profissão Repórter da Rede Globo.

A ascensão de um negro incomoda, mas é necessária. Com 56,1% da população brasileira sendo negra, é importante ver representatividade em lugares nunca antes vistos. E mais uma vez, Manoel conquistou um lugar de destaque no programa de variedades e grande aposta da emissora para as manhãs de sábado, o É de Casa.

Nessa época, começaram a surgir rumores de que o jornalista tinha certo desgaste na convivência com os colegas. O programa era ao vivo durante 5 horas por dia e contava com 6 apresentadores. Ele começou como reserva no lugar de André Marques, que na época precisava de folgas por apresentar outro programa, The Voice Kids, ao longo da semana. No entanto, nunca foram provadas as histórias dos portais de fofoca “papa clique” que afirmavam que Manoel tinha problemas com seus colegas.

Mesmo em meio a rumores, ele novamente atinge grande status. Com a saída de Fátima Bernardes do seu programa Encontro, ele foi anunciado como “parceiro” de Patrícia Poeta. Agora, estava na tela da televisão nacional, todas as manhãs. Nessa fase, Patrícia, que também já havia passado pelo É de Casa, buscava uma nova oportunidade de ter um programa só seu.

Um dos maiores preconceitos da emissora ficou evidente ao intitular a nova atração como "Encontro com Patrícia Poeta", mesmo Manoel apresentando o programa da mesma forma que ela. Patrícia, que foi esposa de Amauri Soares, então diretor dos Estúdios Globo, tinha fama de não ter o carisma necessário para a função, mas tinha poder para atuar onde quisesse. Manoel passou a aparecer reprimido em vários aspectos, e a mídia começou a atacá-lo, surgindo histórias negativas sobre ele. Mesmo assim, ele continuou crescendo em sua carreira e passou a integrar o programa diário e o time de homens que apresentavam e debatiam no Papo de Segunda, no canal de TV paga GNT.

Enquanto surgiam rumores de ataques de estrelismo, má conduta com superiores e colegas de programa, Manoel foi desligado da emissora. Mesmo fora, surgiu uma nova fofoca de que ele tinha sido demitido por justa causa. Ele precisou vir a público, através de suas redes sociais, e mostrar sua carta de demissão sem justa causa. No entanto, já era tarde, pois vários "portais" começaram a caçar cliques e compartilhamentos com as mais variadas histórias sobre ele.

Manoel é aquele negro que incomoda por sua grandeza. Aquele que chega a um lugar com um perfume mais cheiroso que o seu. Que está de gravata e não está a seu serviço. A mulher negra que está na televisão falando sobre pautas de física quântica, em vez daquelas que comumente vemos. Aquele que se torna nosso chefe e não mais o segurança, porteiro ou garçom. Precisamos assumir que a grandeza de uma pessoa às vezes incomoda aqueles que sempre tiveram o privilégio.

Ele não pode ter seu camarim, ele não deve ter seu programa, ele não pode discutir tanto em um programa de discussão, ele não pode opinar, ele não pode discordar, ele não pode ser tão família, ser tão legal, ser tão artístico...

Manoel deixou um legado para os brancos que não entendem o que ele mesmo viria a enfrentar. Seu livro, "Para meu amigo branco", é uma obra que perdurará por muitos anos, não só pelo conteúdo, mas também pelo fato de seu autor ter escrito sobre tudo aquilo que aconteceria com ele no futuro. Nele, ele fala sobre o preconceito e como isso está enraizado em nosso cotidiano, além de abordar a responsabilidade do branco em combater o racismo.

Quero ver Manoel na TV todos os dias, a toda hora, assumindo um espaço que lhe pertence por talento e direito. E ele não parou, recentemente lançou em seu canal no Youtube o programa "Bombou", onde comenta notícias do dia-a-dia, tornando-se um dos mais ouvidos no Spotify na semana de estreia.

Finalmente, chegou a vez de Manoel ser mais Manoel.

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