Os superpoderes do Jornalismo.


Antigamente, o rádio foi o grande difusor das notícias do dia a dia. Através dele, milhares de pessoas recebiam as principais notícias de esportes, lazer, política, entre outros temas relevantes. No começo, as ondas de rádio transmitiam óperas e algumas poucas músicas. No Brasil, a chegada ocorreu em 23 de setembro de 1923, através do médico legista Edgard Roquette-Pinto. Ele foi o primeiro criador de uma rádio no Brasil, a Sociedade do Rio de Janeiro, que em seu início trazia o ideal de educar através da radiodifusão.

A primeira pessoa a se formar em jornalismo no Brasil foi Narcisa Amália de Campos, fundadora do jornal Gazetinha em 1884, que tinha como subtítulo "a folha dedicada ao belo sexo". Assim, ela alcançou projeção em todo o país com artigos em favor da Abolição da Escravatura, defesa da mulher e dos oprimidos da época. Surgia, assim, o jornalismo em defesa da sociedade, buscando a verdade em prol de todos.

Do rádio, o jornalismo passou para o jornal impresso, que reinou durante anos, através de grandes companhias editoriais, e assim surgiram diferentes linhas editoriais. Inclusive, houve jornais que apoiavam a ditadura militar, um dos principais retrocessos de nossa nação. Nessa época, os jornais de apoio circulavam normalmente, oferecendo matérias que respaldavam os militares e suas práticas.

Um dos principais jornalistas da época da ditadura militar não era brasileiro nem mesmo alguém que apoiava o regime. Vladimir Herzog foi um dos primeiros jornalistas a ter superpoderes, mas sua habilidade em retratar o país real o levou à morte. Nascido na Croácia, ele migrou para o Brasil com sua família para fugir da Segunda Guerra Mundial. Estudioso, ainda na adolescência, cursou filosofia na Universidade de São Paulo, migrando para o jornalismo por meio dos estágios que fez no Jornal Estado de São Paulo.

Herzog tornou-se um expoente fundamental no jornalismo nacional, chegando a ser escolhido como secretário de Cultura de São Paulo, para dirigir a TV Cultura em 1975. Devido à sua postura política e seu compromisso com uma prática jornalística voltada para a divulgação das notícias do Brasil real, ele enfrentou reações e denúncias por parte dos apoiadores da ditadura. Em outubro do mesmo ano, ele foi chamado a depor sobre suas ligações com o Partido Comunista do Brasil, comparecendo ao Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI).

Os militares afirmaram que Herzog se suicidou na cela, enrolando um cinto em seu pescoço. Após muitos anos de investigação, chegou-se à conclusão de que ele entrou no quartel, foi encapuzado, amarrado a uma cadeira, sufocado com amoníaco, submetido a espancamentos e choques elétricos, seguindo a rotina de diversos outros presos políticos. Vários elementos levaram a essa conclusão, começando por uma foto divulgada, na qual é possível ver uma suspensão incompleta, tornando impossível o suicídio por enforcamento. Além disso, há testemunhos de outros presos no local. Em 2013, o Tribunal de Justiça de São Paulo emitiu um novo atestado de óbito, atribuindo a causa da morte a "lesões e maus-tratos durante o interrogatório", atendendo a um pedido da Comissão Nacional da Verdade. A Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil pela falta de julgamento e punição pela morte de Herzog.

A era da digitalização trouxe um marco para o jornalismo, visto que surgiram linhas editoriais independentes de apoio partidário, comercial e de impacto social. Os chamados superpoderes surgem com a descoberta de informações relevantes que mudam o curso da história atual em muitas ocasiões. O jornalismo tornou-se uma atividade muito apontada como a integradora de informações e análises sobre os rumos de nossa nação. Um legado do Brasil, mas também de muitas nações que sempre foram silenciadas. O retrato da atuação do jornalismo como um agente transformador de estruturas é refletido no último Prêmio Nobel da Paz, concedido a dois jornalistas: Maria Ressa, das Filipinas, e Dmitry Muratov, da Rússia. Eles foram agraciados com o prêmio por suas trajetórias em prol da liberdade de expressão e democracia em dois países marcados pelo autoritarismo e posicionamento político.

O crescimento do jornalismo local evidencia os superpoderes. São matérias que se concentram no cotidiano das cidades, transformando o ato de informar em uma forma de fiscalização das ações do executivo municipal. Em muitas cidades, existem jornais municipais ou regionais nos quais é possível observar a cobrança das autoridades em relação a diversos serviços, alguns dos quais chegam a beirar a inconstitucionalidade de suas atuações.

Os casos relacionados à saúde são frequentemente enfatizados pelo jornalismo local, expondo a carência de atendimento, a superlotação dos hospitais e exigindo que as autoridades tomem providências, muitas vezes de forma individualizada, ao relatar as histórias dos pacientes. Todos os assuntos passam por essa forma de jornalismo, abrangendo situações como enchentes, falta de energia, quedas de postes e árvores, limpeza urbana, abuso policial, entre outros.

É interessante observar que muitos desses programas continuam atuando ao cobrar das autoridades e estabelecer prazos para soluções, determinando assim uma data para apresentar os resultados ou exigir ações novamente. O jornalismo age como se fosse um vereador da cidade, o qual frequentemente perde sua essência de fiscalização ao se concentrar em ações que visam a integrar o executivo municipal por meio de alianças, ou ao abordar temas de pouca relevância para a sociedade, como a escolha de nomes de ruas, debates políticos superficiais e a falta de compreensão da verdadeira função constitucional da legislatura municipal.

Assim, o jornalismo brasileiro torna-se um poderoso aliado da democracia, uma vez que nos últimos anos os ataques à produção de informação têm sido alvos políticos partidários. Algumas emissoras apresentam diferentes versões de um mesmo tema. A chamada fake news transforma-se em fake análise, na qual "analistas" discutem uma matéria falsa ou tendenciosa. Desinformações sobre a pandemia de coronavírus proliferam, com muitas supostas práticas inovadoras de cura, inclusive vindas de representantes do mais alto escalão da política nacional, ampliando matérias de jornalismo tendencioso. Descobertas de casos de corrupção, peculato e associação criminosa estão entre os últimos fatos relatados pelos jornalistas, todos os dias.

O papel do jornalismo segue a missão de informar com imparcialidade e crítica. Uma sociedade plural é aquela que segue o preceito de nossa Constituição Federal, que assegura o direito de informar, se informar e ser informado, permitindo o livre acesso à informação e aos dados públicos e privados de relevância popular.

Viva os superpoderes do jornalismo!

Comentários

Postagens mais visitadas