Família Acolhedora: um ato de amor que dura para sempre.
O rosto carregado de tristeza, nas ruas, catando latas para
sobreviver ao vício. Muitos relacionamentos tornaram-se sua maneira de
alimentar-se e sobreviver na batalha contra a doença das drogas. O sexo sem
proteção a levou a engravidar. Ao longo dos nove meses, comendo precariamente,
enfrentando o frio e afundando cada vez mais nas drogas, ela se encontra presa
em um ciclo que a assombra há anos. Já não sabe quem poderia ser o pai daquela
criança.
Um dia, enquanto dorme nas ruas, ela percebe algo molhado
entre as pernas. Chegou o momento crucial. Uma ambulância do SAMU a transporta
para um hospital próximo. A situação é caótica. Ela não possui documentos e
sequer realizou qualquer exame pré-natal. Nasce um belo menino, aparentemente
saudável e sem necessidade de cuidados médicos imediatos. A mãe toma um banho,
come algo e recebe uma série de orientações sobre os cuidados a serem prestados
àquele pequeno ser. Horas após o parto, ela é indagada sobre sua moradia,
histórico familiar e dependência química. A adrenalina do momento faz com que
ela fuja do hospital, retornando às ruas para continuar alimentando seu vício.
A criança é deixada para trás.
Este é um relato fictício que retrata as numerosas ocasiões
em que crianças se tornam alvos de vulnerabilidade, não apenas por abandono,
mas também por abuso sexual, agressão, negligência e outras situações. De
acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, o acolhimento é uma das
medidas de proteção que visa afastar temporariamente a criança do convívio dos familiares.
Esse processo é avaliado e institucionalizado pelos Conselhos Tutelares
municipais, com a aprovação jurídica do Juizado da Criança e do Adolescente.
Na maioria das vezes, a criança é afastada e entregue aos
cuidados de abrigos institucionais. Esses locais oferecem estrutura para que a
criança receba alimentação, higiene e educação com a presença de educadores
contratados.
Poucas pessoas sabem que existe uma maneira de suprir todas
essas necessidades que o abrigo proporciona, mas também incluir o amor e a
educação de uma família. Uma das medidas protetivas excepcionais e provisórias
é o acolhimento familiar. Dessa forma, a criança sob proteção é confiada a uma
família, vivendo integralmente em suas casas e recebendo a atenção necessária
nesse momento delicado.
As famílias acolhedoras selecionadas são preparadas, acompanhadas e orientadas para receber crianças ou adolescentes em situação de vulnerabilidade, assumindo temporariamente todos os cuidados e proteção. O caráter temporário do acolhimento familiar pode sugerir que essa atitude pode prejudicar a criança e a família que acolhe. Pesquisas científicas em todo o mundo demonstram que essa modalidade deve ser a preferencial para o desenvolvimento da criança e do adolescente, pois está repleta de carinho, dedicação e afeto em um momento difícil de suas vidas.
Quanto à família acolhedora, esta deve estar ciente de sua
responsabilidade, que tem um começo, um meio e um fim, mas com um gesto que
perdura para sempre. Afinal, esse acolhimento pode mudar o curso da vida da
criança ou do adolescente, e a mesma família pode continuar oferecendo carinho,
acolhimento em outras ocasiões. Após um período de análise pela Assistência
Social Municipal, em conjunto com o Juizado da Criança e do Adolescente, a
criança é encaminhada de volta à sua família, dependendo da situação em que a
medida protetiva foi aplicada, podendo ser adotada por um parente ou
encaminhada para adoção definitiva por famílias cadastradas no Sistema Nacional
de Adoção.
Assegurar o acolhimento, especialmente pelo programa Família
Acolhedora, requer urgente divulgação e expansão dessa opção nos municípios. No
Brasil, apenas 5% das crianças acolhidas por medidas protetivas são destinadas
aos cuidados de uma. O serviço de acolhimento familiar é altamente desigual,
com 80% da oferta concentrada nas regiões Sul e Sudeste. A realidade em países
desenvolvidos mostra a possibilidade de ampliação, como é o caso da Austrália,
Reino Unido e Estados Unidos, onde em média 85% das crianças afastadas de suas
famílias são acolhidas por famílias acolhedoras.
Para entender o impacto, uma pesquisa realizada no Hospital
Infantil de Boston pela Universidade Harvard revelou que a cada ano que um bebê
passa em uma instituição de acolhimento, seu desenvolvimento pode ser atrasado
em até 4 meses. O papel da Família Acolhedora é fornecer um ambiente onde a
criança possa ficar forte e segura para seguir adiante. Os benefícios são
diversos, começando pelo afastamento da criança de situações de
vulnerabilidade, além das reduções de custos nos abrigos institucionais para os
municípios envolvidos, o que permite maior investimento na equipe de apoio
psicossocial.
Uma família acolhedora pode assumir formas, contextos e
orientações variadas, mas o que prevalece é o ato de amor que perdura para
sempre.
Faça sua parte. Visite www.familiaacolhedora.org.br ou entre em contato com a Assistência Social de seu município.
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