A chacina da Candelária está acontecendo há 30 anos.


Uma das mais surpreendentes chacinas do Brasil está completando 30 anos, mas ela não parou de acontecer. A noite do dia 23 de julho de 1993 foi aterrorizante para os jovens que dormiam em frente à Igreja da Candelária, na cidade do Rio de Janeiro. Jovens entre 11 e 19 anos foram alvo de tiros após a meia-noite. Relatos indicam que um táxi e um Chevette pararam em frente à igreja, com placas cobertas, e seus ocupantes efetuaram os disparos. Estima-se que mais de 70 pessoas estavam dormindo nas ruas da região naquele momento.

Oito jovens, negros e moradores de rua sem a presença de seus pais, perderam a vida, além de dezenas de feridos. Um dos feridos, Wagner, desempenhou um papel fundamental na investigação, pois relatou os momentos de horror e como conseguiu escapar, mesmo após ser atingido por quatro tiros. O descaso em relação aos jovens é tão grande que ele sofreu um novo atentado nas ruas em 1994, sendo colocado no Programa Nacional de Proteção às Testemunhas.

Sete pessoas foram indiciadas, incluindo policiais militares e ex-policiais. Acredita-se que faziam parte de uma milícia e que a presença dos moradores de rua atrapalhava seus interesses. Todos os acusados pelo crime estão em liberdade, e nenhum deles cumpriu sua sentença condenatória. Curiosamente, um ex-policial condenado a 300 anos de prisão também está em liberdade.

Um dos “condenados” ficou muito conhecido, mas sua sentença foi a própria morte. No entanto, não se trata de um dos acusados, mas sim de uma das crianças vítimas que dormiam nas ruas naquele fatídico dia. Sete anos após a tragédia, Sandro Barbosa do Nascimento, sobrevivente da chacina que se tornou morador de rua após testemunhar seu pai assassinar sua mãe aos 8 anos de idade, embarcou em uma jornada rumo à morte. Viciado em drogas e com sua saúde mental afetada pela vida difícil, ele decidiu assaltar um ônibus armado com um revólver calibre .38. A polícia foi chamada e negociou com ele por mais de 5 horas.

Um dos maiores erros policiais ocorreu quando Sandro e uma das reféns foram mortos. Ao sair do ônibus com a refém pelo pescoço, um policial do BOPE tentou atirar em Sandro, mas acabou atingindo fatalmente a refém na cabeça. Sandro foi preso vivo, mas acabou sufocado pelos policiais durante os espancamentos efetuados dentro da viatura. Ele foi enterrado como indigente, com apenas uma tia presente no velório. Mais uma vez, os policiais envolvidos no caso foram inocentados.

De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança, a violência policial que resulta em mortes de jovens demonstra que o Brasil apresenta índices de letalidade comparáveis a países ditatoriais ou em declarada guerra. Não se trata apenas de mortes por armas de fogo, mas também de uso da força, espancamentos e torturas.

São inúmeros casos de jovens mortos em situações duvidosas, o que nos deixa perplexos diante da postura agressiva de nossa polícia. A falta de treinamento, excesso de trabalho, hierarquia e o uso da força sem uma definição clara de metas estão entre os diversos motivos para essas mortes. Você pode se questionar: estou lendo uma coluna que defende bandidos? Independentemente de serem considerados bandidos ou não, todos têm o direito pleno de defesa, e o Brasil não tem pena de morte em seu código penal. Além disso, a Constituição Federal estabelece o direito à vida como um dos fundamentos básicos.

Um caso recente e enigmático que ilustra a atuação policial e como sua agressividade pode ser fatal é o de Gabriel Marques Cavalheiro, de 18 anos. Ele foi até a cidade de São Gabriel, no Rio Grande do Sul, em 13 de agosto de 2022 para se alistar no Exército Brasileiro. Na mesma noite, ele foi visitar uma amiga na cidade. Uma pessoa que o viu em frente à residência chamou a polícia, considerando-o suspeito. Gabriel desapareceu e foi encontrado, após 6 dias, em um açude conhecido como Lava Pés.

Três policiais são acusados pela morte do jovem. Segundo a perícia, quando Gabriel foi abordado, ele foi colocado de joelhos no chão. Ao questionar o policial sobre o motivo dessa atitude, recebeu uma cacetada fatal na cabeça. Após sua morte, seu corpo foi levado ao açude, numa tentativa de ocultação.

Uma das soluções para diminuir casos como esse é a adoção de medidas mais severas em relação aos policiais, que muitas vezes são investigados pela própria polícia e acabam sendo protegidos pela corporação, que teme assumir a responsabilidade pela violência letal. Quando um policial dá o primeiro tapa em alguém, ele viola uma das principais missões da polícia: preservar a ordem pública, os direitos e garantias constitucionais, e proteger a integridade física e o patrimônio dos cidadãos, contribuindo para a promoção da paz social.

Outro recurso fundamental para reduzir as mortes de jovens é a utilização de câmeras corporais. Apenas em São Paulo, houve uma redução de 30% nas mortes durante o período em que esses equipamentos foram utilizados, sendo que em 98% das abordagens não foram registradas atitudes agressivas.

Até quando teremos que conviver com a chacina da Candelária ocorrendo todos os dias? A igreja da Candelária, local onde ficou marcado pela cena das mortes, é uma homenagem a Nossa Senhora da Candelária, que em sua simbologia carrega em uma das mãos uma criança e na outra uma vela, símbolo da paz.

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