O retorno do macaco Tião.

 

Querido pela comunidade carioca, um chimpanzé encantava a todos no Jardim Zoológico do Rio de Janeiro em 1988. As pessoas adoravam tirar fotos e alimentá-lo dentro da jaula. Seu nome, Tião, era uma homenagem ao padroeiro da cidade, São Sebastião.

Apesar da sua gentileza com o público, havia relatos de momentos em que Tião demonstrava raiva, lançando fezes nas pessoas, exibindo seu pênis para as mulheres e imitando o comportamento humano ao andar ereto. O ponto alto de suas ações desonrosas ocorreu na reinauguração do zoológico, quando ele arremessou terra no rosto do prefeito da cidade, e o vídeo foi transmitido no programa Fantástico para todos verem.

Daí surgiu uma ideia surpreendente. A revista Casseta Popular decidiu lançar o macaco Tião como candidato a prefeito da cidade do Rio de Janeiro, como um protesto político em defesa do voto livre. Sem campanha oficial e mesmo jogando esterco em seus eleitores, Tião recebeu mais de 400 mil votos, conquistando o terceiro lugar no pleito daquele ano.

A possibilidade de escrever o voto em cédulas de papel, sem restrição aos candidatos previamente cadastrados, contribuiu para o grande número de votos recebidos por Tião. O famoso macaco, que se tornou notícia em todo o Brasil, faleceu aos 33 anos vítima de diabetes.

Jair Bolsonaro, condenado por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação públicos para espalhar fake news, age como se fosse a ressurreição do macaco Tião. Sentado na cadeira presidencial, ele tentava voltar ao tempo e reintroduzir o voto em papel, que ele chama de "auditável". Agora, com sua inelegibilidade até o ano de 2030, ele busca se tornar um político inesquecível.

Há muitas semelhanças entre Bolsonaro e Tião, começando por sua cidade de origem política, o Rio de Janeiro, e também pela raiva que demonstram ao lidar com o público, destilando ódio e jogando “excrementos” a todos ao seu redor.

Até o dia do julgamento do Tribunal Superior Eleitoral, Bolsonaro se recusava a indicar um possível substituto e afirmava que poderia concorrer novamente. Sua falta de vontade de assumir um emprego comum o fez até mencionar a possibilidade de concorrer como vereador no Rio de Janeiro. Ele concedia entrevistas com um tom pacífico e amoroso, usando uma voz calma e pausada, com um sorriso no rosto. Falava de justiça, oportunidades e até acreditava na capacidade de perdão do então presidente do TSE, Alexandre de Moraes, que poderia votar contra sua cassação.

Tudo mudou quando sua condenação foi confirmada. O conhecido Bolsonaro impulsivo e raivoso voltou à tona. No mesmo dia, ele concedeu uma entrevista coletiva em que abordou temas como comunismo, Venezuela, vacinas e outros assuntos comuns à sua base de apoio. Ele se sente perseguido pela esquerda e julgado por uma simples reunião com embaixadores. O fato que o afastou da vida pública por um bom tempo envolveu uma das várias tentativas de golpe de estado aplicadas por Bolsonaro e seu entorno. Começando pelo convite enviado aos embaixadores, chamando-os para uma reunião sobre segurança nacional. Durante esse encontro, que contou com a presença de representantes de várias nações, o ex-presidente apresentou supostos casos de fraude nas urnas eletrônicas, atacou os ministros do STF, tentando relacioná-los a crimes como peculato e tráfico de influência, entre outros. Tudo isso aconteceu nas dependências do governo brasileiro e foi transmitido pelo canal estatal TV Brasil-EBC.

Este é apenas um dos mais de 20 inquéritos que envolvem a vida de Bolsonaro. São casos obscuros que foram mantidos sob a cruel proteção da imunidade parlamentar, incluindo acusações de corrupção, como o caso em que ele roubou joias de milhões de reais presenteadas à nação, crimes de racismo, homofobia, incentivo ao estupro, falsificação de cartões de vacina, desvio de dinheiro público para campanha eleitoral, interferência na Polícia Federal (denunciada pelo agora aliado Sérgio Moro), conduta incitando golpes durante eventos de 7 de setembro, entre outros.

Ele já não ataca mais Alexandre Morais, Roberto Barroso ou Edson Fachin, ministros da mais alta corte do Brasil. Não fala mais sobre o voto impresso ou sobre a força de seu eleitorado baseado em Deus, Pátria e Família. No entanto, continua a usar recursos públicos para tentar se manter presente.

Como presidente de honra do Partido Liberal, recebe um salário de mais de 40 mil reais e desfruta de uma casa alugada de alto padrão em Brasília, além de escritório, funcionários, ternos, refeições e todos os privilégios que um político recebe. É importante ressaltar que o partido utiliza verbas do fundo eleitoral para sustentar esses custos. Sua esposa, Michele Bolsonaro, é presidente do PL Mulher e gere mais de 1 milhão de reais anuais para promover a participação das mulheres na política. Ainda é importante destacar que Bolsonaro usufrui dos benefícios concedidos a ex-presidentes da República, incluindo assessores, motoristas, segurança, entre outros. De acordo com uma análise dos custos para o governo brasileiro desse benefício, a cifra já ultrapassa a marca de mais 1 milhão de reais apenas nos primeiros seis meses de 2023.

Com sua inelegibilidade, o partido esfriou e seu apoio já não parece tão necessário. Para que ter um troféu se o time não pode mais jogar o campeonato? Agora ele que era chamado de "pária internacional", age como um "pária partidário". Claramente, o partido deve mantê-lo por perto por mais algum tempo. Ele continua a postar como se fosse o presidente em suas redes sociais, inclusive no Linkedin, onde por um tempo manteve a informação de que era presidente da República, mesmo após perder as eleições. Ele não apresenta um substituto e age como se tivesse a capacidade de ser um candidato fantasma ou de se manter presente em uma nação onde a política é altamente volátil.

E o macaco Tião? Esperamos que Bolsonaro acabe no mesmo lugar que ele: na jaula.

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